domingo, 17 de fevereiro de 2013

Mesmo com mais empregos, inserção ainda se mostra difícil


SEM QUALIFICAÇÃO
PECÉM

Unidade do Sine/IDT no Pecém recebe trabalhadores locais, de outros estados e até países à procura de vaga
A possibilidade de conquistar um posto de trabalho, todavia, está atrelada a uma oportunidade anterior, que muitos ainda não tiveram - a de se qualificar profissionalmente foto Alex Costa
Antes mesmo do atendimento iniciar, cedo da manhã, um homem aguarda, na entrada da unidade do Sine/IDT no Pecém, sua vez de ser chamado. Consigo, leva alguns documentos e a expectativa de, ainda naquela semana, conseguir um emprego há meses desejado.

Pouco depois das oito horas, é atendido. Exigem-lhe experiência, ensino básico completo, cursos profissionalizantes, noções de inglês. Não os tem. Ainda criança, largou a escola para ajudar os pais e se dedicar a trabalhos informais, sem carteira assinada e sem muitos aprendizados ao longo de vários anos em que conquistou pouco mais do que o suficiente para se manter.

Após deixar o currículo na unidade, mais uma vez, volta para casa, para a informalidade, para a insegurança financeira. Quando a senha seguinte é chamada, outro homem, de outro estado, apresenta também seus objetivos. Depois dele, é a vez de um jovem que sente crescer, a cada dia, a necessidade de conseguir o primeiro emprego. Dessa forma, mantém-se, no prédio do Sine, até a tarde, essa sequência de anseios e insistências.

Com milhares de novas vagas previstas para este ano, principalmente para empresas que prestarão serviço para a Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP), de São Gonçalo do Amarante recebe, a cada semana, visitantes de outros estados ou países, mais pessoas interessadas em mudar de vida.

Contraste

Os habitantes do distrito, por sua vez, tentam se inserir nesse processo, tendo como inspiração histórias de pessoas que ascenderam profissionalmente e hoje têm uma rotina com a qual nem mesmo sonhavam uma década atrás. A possibilidade de conquistar uma vaga, todavia, está atrelada a uma oportunidade anterior, que muitos ainda não tiveram - a de se qualificar.

O contraste entre o crescimento vertiginoso do distrito e as deficiências que ainda travam o desenvolvimento econômico reflete a oposição entre o homem que no passado pôde se dedicar ao aprendizado e o trabalhador inexperiente que busca um meio de se profissionalizar.

Em meio às contradições, o palco principal da chegada de grandes empreendimentos, no Ceará, é hoje também o cenário gigantesco onde trabalhadores protagonizam histórias de conquistas, desilusões e esperanças.

A primeira reportagem sobre as transformações recentes no Pecém, publicada no último dia 13, apresentou o impacto dos novos empreendimentos à economia de São Gonçalo. Na semana seguinte, foram apontados alguns dos problemas sociais que persistem ou começam a atingir a população local.

Esta terceira e última publicação tem como foco o elemento apresentado como maior benefício das mudanças na região - a geração de empregos.

JOÃO MOURA
REPÓRTER

Construção lidera rol de demandas

Pedreiros, carpinteiros, topógrafos, ferreiros e serventes estão entre as funções solicitadas para preencher cerca de 1.400 vagas FOTO: DIVULGAÇÃO

Com o início das obras físicas da Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP), previsto para este trimestre, a expectativa do Sine/IDT, que em 2012 intermediou a contratação de 520 profissionais para a usina, é que as contratações em 2013 superem as do último ano. Atualmente, informa o gerente da Unidade de atendimento do Sine/IDT no Pecém, Francisco Pereira, as vagas mais demandadas estão nos setores de construção civil e metalmecânico, destacando-se, por exemplo, pedreiros, carpinteiros e eletricistas.

Além disso, complementa, há a necessidade crescente de trabalhadores que atuem no setor de serviços, principalmente nas áreas de alimentação e fardamento. A procura nesses dois setores deverá crescer junto com as oportunidades na construção.

De acordo com informações da Prefeitura de São Gonçalo do Amarante, a CSP irá demandar, sozinha, durante o pico da construção, 60 mil peões por dia - número superior à população atual do município.

Principais funções

Segundo previsão do Sine, feita a partir da projeção de empresas que já prospectam mão de obra, serão requeridos, neste ano, para a CSP, em torno de 600 refrataristas. Já para eletricistas industriais e de máquinas, são esperadas ao menos 300 vagas. Mais visada, a construção civil demandará cerca de 1.400 vagas - pedreiros, topógrafos, carpinteiros, ferreiros e serventes.

Remuneração

Diante da procura por trabalhadores, indica Pereira, as companhias têm oferecido remunerações melhores do que a média da Capital. O salário médio de um eletricista industrial, no Pecém, ilustra, é de R$ 1.200,00. Somado aos benefícios e possíveis horas extras, o valor pode ultrapassar R$ 2 mil. No caso de eletricistas de força e controle e auxiliares administrativos, o pagamento no fim do mês pode chegar a R$ 2.500,00.

Apesar do cenário tentador, o gerente alerta aos interessados que fiquem atentos ao tipo de profissional exigido pelas empresas, diante do risco de, mesmo sendo qualificado, o trabalhador não encontrar vagas que se encaixem no seu perfil. Uma forma de se informar, orienta, é visitar o site do Sine - www.idt.org.br - e procurar as unidades do órgão em qualquer cidade, já que o sistema é integrado. (JM)

Cearenses com 85% das vagas

O pedreiro Manoel da Silva afirma que o nível de qualificação exigido pelas empresas impede que os cearenses ocupem mais postos FOTO: ALEX COSTA
Apesar da preferência das empresas por trabalhadores que moram em São Gonçalo do Amarante, para evitar pagar transporte e alojamentos, uma parte significativa das vagas criadas no Pecém é preenchida por pessoas de outros estados ou países, diante da falta de qualificação.

Conforme o coordenador da regional metropolitana do Sine/IDT, em torno de 15% das vagas hoje preenchidas com intermédio do órgão são ocupadas por estrangeiros ou pessoas de outros estados. Esse percentual, afirma, já foi maior, chegando a aproximadamente 30%.

O maior aproveitamento por parte dos cearenses, hoje, afirma, ocorre por conta das capacitações que já foram realizadas pelas próprias empresas, nos últimos anos, com moradores de São Gonçalo do Amarante e municípios vizinhos. "As empresas querem um super homem", comenta o gerente da unidade de atendimento do Sine/IDT no distrito de Pecém, Francisco Pereira.

"Ás vezes, a gente tem que dizer: ´você não vai conseguir preencher o seu quadro com o perfil que você está pedindo´", complementa.

Idioma

Como muitos dos novos investidores são estrangeiros, principalmente da Coreia do Sul, acrescenta, ter noção de inglês é um grande diferencial. Isso tem acontecido, frisa, mesmo no caso de ocupações para as quais um segundo idioma não era exigência, como técnicos em segurança do trabalho e eletricistas.

Um dos índices que ilustram por que a mão de obra local não é mais aproveitada é a elevada taxa de analfabetismo na região. Em São Gonçalo, 20,2% da população com 15 anos ou mais não sabe ler nem escrever, totalizando 6.453 pessoas, conforme dados do Censo de 2010 do IBGE. Desse total, 1.453 pessoas têm entre 25 e 39 anos.

Espera há um ano

Uma das pessoas que procuraram o Sine/IDT na última semana, o pedreiro Manoel da Silva, 36 anos, diz já não saber exatamente quantas vezes foi até a unidade buscando uma vaga nos últimos 12 meses. "Acho que umas 30 vezes", comenta, com bom humor, mas sem esconder a gravidade da situação.

"Eu sei que, em parte, a culpa é minha", afirma, referindo-se ao fato de não ter a qualificação mínima exigida pela maioria das empresas. Aos 11 anos, deixou a escola para ajudar os pais na agricultura, à qual se dedicou até a idade adulta. Fora a experiência no campo, atuou na construção do Porto do Pecém e informalmente, como assistente de pedreiro. Hoje, diz, pretende se profissionalizar na área. Enquanto não consegue uma vaga, alimenta a expectativa de ser contratado por uma empresa que lhe ofereça treinamento. (JM)

Fonte: Diário do Nordeste (27.01.13)

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